Os cabelos possuem um significado muito importante e tem adquirido diferentes conotações ao longo da história da humanidade, podendo demonstrar posição sócio cultural, profissional, econômica e até mesmo religiosa de indivíduos e grupos sociais.
Achados arqueológicos realizados na Escandinávia encontraram entre os objetos do homem pré histórico um pente, feito de osso, com 10 mil anos de existência
Na Grécia Antiga, séc. II a.C., as pessoas ofertavam seus cabelos aos deuses em troca de promessas e desejos realizados
Deuses e deusas cuidavam de seus cabelos, que integravam os ideias de beleza da época. Afrodite, deusa do amor, da beleza e da sexualidade cobria seu corpo nu com longos cabelos, enquanto Zeus e Apolo possuíam cabelos curtos e barbas
Surgiram na Grécia os primeiros salões de beleza, KOUREIA, onde os cabelos eram perfumados com óleos raros e tingidos, com destaque para os louros e cachos. Esta é a imagem observada em muitas divindades da mitologia grega, que assumiam o ideal de beleza e perfeição corporal
Os jovens copiavam os cabelos de Apolo e Arquimedes, enquanto os mais velhos e os filósofos usavam cabelos longos e barbas densas, como símbolo de sabedoria. Barbas e bigodes eram cortados com pontas de lança e os escravos possuíam cabelos curtos e lisos, não lhes permitindo usar barba ou bigodes
No Egito antigo, há cerca de 5.000 anos atrás, as perucas representavam um forma de distinção social, usadas pelos faraós de grande prestígio
Na Roma antiga o cabelo raspado evidenciava inferioridade, pois apenas escravos, prisioneiros e outros traidores utilizavam esse corte
Na Bíblia, a força incomparável de Sansão se dizia vir dos cabelos
Na mitologia Hindu os cabelos de Shiva apontando para diferentes direções do espaço simbolizam o desapego
Por outro lado observa-se que a calvície, um dos maiores problemas estéticos que preocupa o homem, foi estudada por Aristóteles (384 a.C. a 322 a.C.), relacionando-a a outras características físicas dos indivíduos
Na Idade Média os cabelos podiam revelar riqueza e nobreza. O Rei Sol, Luiz XIV, usava uma peruca para adornar a cabeça, enquanto seus vassalos não possuíam esse direito. A partir de então a moda francesa dos cabelos passou a dominar as civilizações
Nos séculos XVIII e XIX jornais de moda divulgavam os estilos de cabelo pela Europa, com padrões vindos das casas reinantes de Paris, Viena e também das elites
O século XX trouxe novas possibilidades de “uso” do cabelo, que foi se modificando de acordo com os costumes predominantes e com o desenvolvimento de novos produtos e tecnologias
Nos anos 20 havia, por exemplo, uma polêmica envolvendo o uso de cabelos curtos para as mulheres, mas à medida em que elas ampliavam sua participação na sociedade e no mercado de trabalho compreenderam que a moda dos penteados é um espelho das mudanças sociais vigentes
Os recursos disponíveis para se cuidar da aparência também ficaram mais acessíveis para as classes mais baixas e não apenas para as elites
8. Os padrões culturais incluem a valorização dos cabelos como parte integrante e fundamental do modelo de beleza atual, onde a mídia e as grandes indústrias cosméticas buscam impor seus ideais. também devem acompanhar os próprios ideais das sociedades
Este processo influencia o indivíduo e a sua percepção de si mesmo na construção de sua auto-imagem ou imagem corporal e em sua auto estima
9. Pesquisei alguns estudos na área dermatológica que investigam como a perda ou o excesso dos cabelos pode influenciar na auto estima, na imagem corporal e no bem estar dos pacientes
10. Auto estima “é a confiança em nossa capacidade para pensar e enfrentar os desafios da vida”, segundo Claret (2009). A auto estima está relacionada com a imagem corporal que cada indivíduo constrói sobre si mesmo, ao longo de sua vida e é, de acordo com Branden (1995, em Borba, 2011) uma poderosa necessidade humana que pode funcionar como se fosse o sistema imunológico da consciência. Fornece resistência, força e capacidade de regeneração ao indivíduo
Experimentar uma auto estima elevada pode servir como um fator protetivo para lidar com doenças crônicas, enquanto uma baixa auto estima está associada à ansiedade, depressão e relatos mais frequentes de sintomas psiquiátricos (Bazarganipour, F. et al, 2013)
11. A imagem corporal é definida como “uma imagem mental do próprio corpo, uma atitude sobre o self físico, sua aparência e estado de saúde, completude, funcionamento normal e sexualidade… é um componente do amplo conceito de self que, para as mulheres, inclui se sentir feminina e atraente, gostar do próprio corpo como um símbolo de expressão social e como uma forma de ser no mundo”
(Mock, V. 1993, em Bazarganipour, F. et al, 2013, p. 829)
12. Portanto, a imagem corporal, a auto estima e a própria identidade do paciente são afetadas por seu aspecto físico, o que inclui de maneira marcante a aparência dos cabelos. Importante considerar que estas questões também são desenvolvidas de formas diferentes em contextos sócio culturais distintos.
Diversas pesquisas apontam para o impacto dos cabelos na auto estima e bem estar dos pacientes
13. A perda de cabelos em pacientes com Síndrome do Ovário Policístico
Este estudo investiga se características da SOP são associadas a sérios aspectos do bem estar, especialmente à auto estima e a satisfação corporal dos pacientes. Foram pesquisadas 300 mulheres com SOP, entre 15 e 40 anos, em Kashan, no Iran, utilizando-se o BICI, Inventário de Avaliação da Imagem Corporal e a Escala Rosenberg de Auto Estima, além de informações clínicas da SOP
14. Escala da Imagem Corporal Cutânea – Inventário IBCI
1-Eu gosto da aparência da minha pele
2-Eu gosto da cor da minha pele
3-Eu gosto da aparência da pele do meu rosto
4-Eu gosto da cor da pele de meu rosto
5-Eu estou muito satisfeita com o meu cabelo
6-Eu estou satisfeito com aparência das minhas unhas das mãos
7-Eu estou satisfeito com aparência das minhas unhas dos pés
Escala de 1 a 9 ( 0 é nada, 1 a 3 levemente, 4 a 6 moderadamente, 7 a 9 muito )
Alguns autores acreditam que a Escala da Imagem Corporal Cutânea seja a melhor ferramenta disponível para monitorar esses dados
15. A auto estima foi medida com a Escala de Auto Estima de Rosenberg, que utiliza uma escala de 5 pontos, com 10 afirmações que variam de
“nunca verdade” para “quase sempre verdade”
01. Sinto que sou uma pessoa de valor como as outras pessoas
02. Eu sinto vergonha de ser do jeito que sou
03. Às vezes, eu penso que não presto para nada
04. Sou capaz de fazer tudo tão bem como as outras pessoas
05. Levando tudo em conta, eu me sinto um fracasso
06. Às vezes, eu me sinto inúti
07. Eu acho que tenho muitas boas qualidades
08. Eu tenho motivos para me orgulhar na vida
09. De um modo geral, eu estou satisfeito(a) comigo mesmo(a)
10-. Eu tenho uma atitude positiva com relação a mim mesmo(a)
16. Os resultados apontam que pacientes com hirsutismo devido à SOP apresentaram níveis mais baixos de auto estima e uma satisfação corporal menor, comparando-as com as mulheres sem hirsutismo. Elas apresentaram uma percepção negativa de sua imagem corporal, incluindo insatisfação com a sua aparência, perda percebida da feminilidade e um sentimento de serem menos atrativas sexualmente
Hahn et al (2005, em Bazarganipour, F. et al, 2013, p. 833) também encontraram que o hirsutismo estava associado negativamente com a auto estima sexual e os estudos de Benson et al (2009) indicam que o risco de sofrerem uma depressão clínica relevante era aumentado em pacientes que reportaram hirsutismo
Nos estudos de Lipton et al (2006, Bazarganipour, F. et al, 2013, p. 834) metade das mulheres com SOP sentiam que os pelos faciais afetavam fortemente sua auto confiança e as faziam preocupar-se com sua aparência, enquanto na pesquisa de De Niet et al mulheres com hirsutismo experenciavam uma satisfação corporal menor (2010, apud)
17. O estudo de Gupta et al (2013) abordou a insatisfação de pacientes dermatológicos com relação à sua Imagem Corporal Cutânea , que “é definida como a representação mental do indivíduo sobre sua pele, cabelo e unhas, e é um fator clínico importante em desordens dermatológicas”
18. Ao acessar a Imagem Corporal Cutânea do paciente dermatológico os autores defendem o uso de um modelo biopsicossocial que envolve:
– avaliação das preocupações do paciente sobre a aparência de sua pele, cabelo e unhas, que pode ser medido clinicamente, com escalas apropriadas ou ambos;
– avaliação de patologias comórbidas de imagem corporal, que tem sido associadas com mais frequência à preocupações com a imagem corporal cutanea
– avaliação de outras comorbidades psiquiátricas, que podem ser “confundidas” com a apresentação clínica de queixas da imagem corporal cutanea e podem demandar um encaminhamento para profissionais de saúde mental
Estas observações são relevantes porque fatores psicológicos e psiquiátricos estão presentes em pelo menos 30% dos pacientes dermatológicos (Gupta et al, 1996, em Gupta at al, 2013, p. 74), mas há outras pesquisas que apontam que esta correlação pode existir em até 45% dos pacientes
19. Nesta avaliação o médico deve considerar o estágio de desenvolvimento do paciente e seu contexto sócio cultural, que possuem efeitos significativos no CBI, considerando ainda que a insatisfação com a imagem corporal cutânea pode ser um problema multifatorial
O cabelo, especialmente do couro cabeludo, tende a ser um componente central da imagem corporal cutânea, essencial para os sentimentos do indivíduo sobre sua atratividade e individualidade.
O cabelo também possui um significado social importante porque tende a ser um indicador de gênero, idade, valores, pertencimento de grupo, e mudanças no cabelo, ainda que não sejam clinicamente significativas, podem ter um grande efeito na imagem corporal do paciente (Cash, 2001, em Gupta et al, 2013).
Similarmente, pelos faciais indesejados são associados com uma grande carga psicológica para mulheres e a perda de cílios e sobrancelhas tem sido associada com perturbações no cerne do “sentido de self” e “identidade de self”, em pacientes com alopecia areata (Lipton et al, 2006, em Gupta et al, 2013).
22. No caso das alopecias cicatriciais, a perda permanente de cabelo é uma emergência tricológica, uma vez que esta perda é rápida e pode ser desfigurativa. Estes pacientes experimentam uma enorme ansiedade e stress psicológico e baixa auto estima, demandando uma diagnóstico rápido e um tratamento agressivo para tentar diminuir ou prevenir a perda futura de cabelo (Siah e Shapiro, 2015)
23. Pradhan et al, 2016 realizaram um estudo com 30 pacientes diagnosticados com alopecia androgenética, que responderam a um questionário de qualidade de vida, visando compreender o impacto psicossocial da doença, que foi subdividido em estado emocional, vida social e funcionamento dos pacientes
Resultados apontam que 74% destes sofreram impactos psicossociais moderados a severos devido à perda de cabelo. Não houve uma diferença significativa de gênero e estado civil com relação aos impactos sociais percebidos. Apesar de não ser estatisticamente significante, as mulheres tiveram um impacto um pouco maior do que os homens no domínio social, bem como os mais jovens. Surpreendentemente, a duração da doença não teve impacto nos resultados. Ressalta-se ainda que mesmo os pacientes com uma perda de cabelo pouco visível sofrem com um stress psicológico considerável.
24. No estudo de Grimalt (2005), realizado com homens calvos, foi constatada uma diminuição em sua auto estima, maior introversão e sentimento de não se sentirem atrativos, sendo que estes relatos foram mais significativos em jovens com AGA. Cash (1992) também avaliou os efeitos psicológicos da Alopecia Androgenética em homens e mulheres e encontrou que aqueles que apresentavam uma perda mais expressiva de cabelo sofriam de um stress psicossocial maior.
25. Com relação a Quimioterapia, Hesketh et al constatam uma série de avanços relativos a diminuição de seus efeitos colaterais, mas a alopecia induzida pela quimioterapia permanece uma questão de difícil solução, apresentando intensas consequências psicossociais e na qualidade de vida, resultando em ansiedade, depressão, imagem corporal negativa, diminuição da auto estima e uma redução no senso de bem estar dos pacientes (Hesketh et al, 2004)
Em alguns casos, pacientes que temem essa queda de cabelo escolhem tratamentos com resultados menos favoráveis mas que tragam menos queda de cabelos, ou podem recusar a tratar-se.
26. Estudos da década de 80 e 90 verificaram que os pacientes consideraram a perda de cabelo como o primeiro, segundo ou terceiro efeito colateral mais indesejado resultante da quimioterapia. Um estudo de Carelle, et al realizado com 100 pacientes em tratamento para o câncer de mama apontou que a alopecia foi considerada o segundo efeito mais indesejável do tratamento, sendo o primeiro o efeito que ele causava na família e nos parceiros (2002 apud, 2004)
Em outros estudos as mulheres identificaram este problema como o mais significativo da quimioterapia, sendo que o mesmo resultado foi encontrado em mulheres no estágio inicial de câncer de mama ou em outros estágios (Kiebert et al, 1990 em apud, 2004) e algumas sentiram mais impacto com a alopecia do que com a própria mastectomia (Tierney, 1987, apud, 2004)
27. O impacto da queda de cabelo pós quimioterapia na qualidade de vida também foi avaliado em uma pesquisa conduzida pela The Wellness Community (Lierberman et al, 2003, apud, 2004). Os resultados apontam que entre as 32 mulheres participantes, diagnosticadas com câncer de mama, aquelas que discutiram sobre a perda de cabelo tiveram níveis mais elevados de ansiedade, incluindo referências ao ridículo, inadequação, vergonha e humilhação
A maioria dos pacientes tem dificuldade em lidar com a CIA porque é uma lembrança visível da doença e da necessidade do tratamento, evocando conotações de doença, câncer e morte. Para as mulheres o cabelo está simbolicamente conectado com sua feminilidade, sexualidade, atratividade e personalidade (McGarvey et al, 2001, apud, 2004). Válido também para os homens.
28. Na maioria das culturas a aparência física é fundamental (Bazarganipour, F. et al, 2013). Consequentemente, quando há mudanças em sua aparência, para homens e mulheres, incluindo nos cabelos, como perda, diminuição, etc. ou ausência, seu funcionamento social e suas relações interpessoais tendem a ser afetadas, bem como sua identidade e sua auto estima
29. Importante ressaltar também que apesar da importância da estética, incluindo a aparência dos cabelos, não deve ser a única fonte inspiradora dos indivíduos (Borba, 2011).
Existem outros valores que influenciam fortemente o indivíduo nesta busca pela felicidade e bem estar e no aumento da auto estima, tais como o equilíbrio emocional, o amor próprio e amor em relação aos outros e a existência de objetivos que permitam a realização de sonhos e que ampliam o sentido da vida para cada um de nós