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Bullying e Vitiligo: Algumas Questões

Por:digitalpixel
Artigos e Publicações | Blog

16

jun 2020

Estar no mundo é um desafio para o portador de vitiligo. Ele é, normalmente, alvo da atenção do outro. Pergunte para qualquer pessoa com vitiligo: possivelmente ele já viveu a experiência de olhar para o lado, em algum espaço público, e perceber ser observado

Alguns olhares são de curiosidade. Outros podem ser de aversão. Nesses casos, situações cotidianas viram, para o portador de vitiligo, experiências ruins. É o que revela o relato de uma mulher, participante de uma pesquisa sobre o vitiligo, ao contar sobre uma simples ida ao banco: ela percebeu ser observada por alguém, que cochichava com outra pessoa ao lado. Esse alguém curioso se aproximou e perguntou: “Credo, o que é isso na sua pele?”. Acuada, decidiu falar que era uma mancha de limão, “não por vergonha”, segundo ela, “mas para não prolongar o assunto.

Outra forma como o portador de vitiligo é alvo da atenção do outro é através do bullying. Mais comumente relatado em escolas e outros ambientes com crianças e adolescentes, o bullying pode também pode acontecer entre adultos – no trabalho, nos clubes, entre outros.

É sobre o bullying que queremos conversar.

O QUE É O BULLYING

A pedagoga Sonia Maria de Souza Pereira, ao falar sobre bullying no ambiente escolar em seu livro “Bullying e suas implicações no contexto escolar”, diferencia esse fenômeno das brigas eventuais. O bullying é caracterizado pela ocorrência de “casos repetitivos e intencionais contra uma mesma vítima”. Não são situações aqui e ali. É contínuo. Uma frequência que, certamente, causa prejuízos psíquicos mais profundos e duradouros.

Para falar sobre o bullying precisamos falar de três elementos. O agressor – que podem ser um, dois, ou vários —, a vítima – normalmente uma —, e os espectadores – aqueles que assistem a agressão sem fazer nada.

É importante ressaltar algo: ao usar as palavras agressores e vítimas podemos dar a impressão de que casos de bullying são apenas aqueles de extrema violência. Não são. Há muito bullying revestido de piadinhas e brincadeiras. Normalmente quando a vítima decide não revidar de volta e até “brincar junto” como uma tática para não ser ainda mais agredida, ela é submetida a brincadeiras que parecem inofensivas. De novo, não são.

Como se trata de casos repetitivos contra uma mesma vítima, há aí o que Sonia define como uma manifestação desigual de poder: o agressor, normalmente, se vê como alguém superior em relação à sua vítima. No caso do portador de vitiligo que sofre bullying, o seu agressor, inconscientemente ou não, o considera inferior por ter as manchas na pele.

A vítima, da mesma forma inconsciente, pode se colocar em um lugar de inferioridade, até como reflexo de outras experiências que já passou na vida. Provavelmente ela passa por episódios no qual é observada com certa frequência. Essa regularidade de experiências ruins e incômodas acabam minando a autoestima do portador de vitiligo, ajudando no desenvolvimento de uma percepção negativa de si (falamos sobre isso em um texto anterior, clica aqui para dar uma olhada). Essa autoestima atacada ao longo da vida acaba por torná-las vítimas ainda mais visadas, principalmente aquelas que não tem uma ajuda psicológica,

O bullying é, então, um fenômeno que precisa ser abordado e atacado. As vítimas de bullying acabam desenvolvendo problemas emocionais e cognitivos, “vivendo sempre sob a sombra do medo, com perda da autoconfiança e confiança nos outros; falta de concentração; falta de autoestima”, como escreve Sonia em seu livro.

Os agressores também nada ganham em serem agressores. Segundo Sonia, as prováveis consequências desenvolvidas neles podem ser “vidas destruídas; crença na força para solução de seus problemas; problemas de relacionamento afetivo e sociale; dificuldade de autocontrole; dificuldade de respeitar leis”, entre outros.

COMO LIDAR COM O BULLYING.

Em um nível macro, nas ruas, talvez não seja possível, a curto e médio prazo, proteger os portadores de vitiligo dos olhares do outro.

Talvez com pressões para criação de projetos de políticas públicas ou, então, com uma intervenção midiática séria e consistente abordando o tema, seja possível caminhar mais rapidamente como sociedade. Porém, como as coisas andam mais devagar, a melhor maneira é trabalhar no portador de vitiligo, vítima de bullying, a sua autoestima: acolhê-lo diante situações difíceis; não negar a dificuldade pelas quais ele passa e, ao mesmo tempo, conversar sobre como ele é muito maior do que as manchas brancas da sua pele.

É fundamental dar ao portador de vitiligo um suporte psicológico e psiquiátrico.

É, também, importantíssimo que o dermatologista que essa pessoa escolheu para acompanhá-la esteja integrada e tenha uma sensibilidade psicossocial desenvolvida, para ajudá-la não só como um profissional que receita pomadas e tratamentos; mas como alguém que a acompanha na jornada

Já na questão do bullying dentro de escolas ou instituições é recomendado fazer um trabalho amplo, envolvendo todos – vítimas, agressores e espectadores –, ao mesmo tempo que o portador de vitiligo é cuidado e ajudado.

Se nas ruas não temos tanto controle dos comportamentos e ações do outro, em instituições elas precisam ser trabalhadas e as pessoas precisam ser envolvidas no processo.

Uma das coisas interessantes ao iniciar algum projeto de combate ao bullying em escolas e ambientes de trabalhos é descobrir que baixa autoestima em relação à própria imagem corporal é geral. Mesmo aqueles que não tem marcas visíveis no corpo sofrem de alguma forma com as pressões estéticas ao redor delas.

Possivelmente o agressor é, ele mesmo, alguém insatisfeito com o próprio corpo e, por isso, precisa provar a todo custo que sua imagem e seu corpo são superior ao corpo do outro.

O fato da grande maioria das pessoas se sentirem mal em relação ao próprio corpo gera nelas uma linguagem corporal negativa, caracterizada por posturas corporais fechadas e falta de contato visual. Um ambiente onde boa parte das pessoas estão fechadas em sua percepção negativa de si é terreno fértil para a agressividade com o outro. Ou seja, é onde o bullying aparece com mais força.

Todos só tem a ganhar com um projeto de abordagem pedagógica e cooperativa para se lidar com o bullying.

Muitas mães e pais de jovens com vitiligo, por exemplo, contam sobre suas tentativas em pedir para escolas onde seus filhos estudam para abordarem a questão. Em algumas delas, entretanto, o fato dos alunos com questões físicas visíveis serem minoria é uma justificativa comum para não se tratar o tema. O que essa conclusão precipitada esconde é que as questões com o corpo são gerais. E, ao tentar ajudar uma possível minoria, o que se faz, de fato, é ajudar a maioria.

CONCLUINDO…

É importante pensar que as estratégias consistentes para lidar com bullying passa por projetos amplos e bem estruturados. Não se trata apenas de suspender o agressor de ir às aulas ou dar uma advertência no trabalho. Talvez funcione em um nível pontual, mas isso não é tão efetivo para se pensar bullyng em um cenário mais complexo. É preciso pensar em projetos amplos.

Da mesma forma, ao cuidar de uma vítima de bullying, como são muitos dos portadores de vitiligo, é preciso pensar em toda a complexidade de sua vida. Apenas falar “não liga para o que os outros dizem” não adianta muito.

É preciso entendê-la como um ser complexo, dentro de uma sociedade, e estar ao seu lado nesse processo de autoestima. No caminho para encontrar a melhor forma de lidar com o olhar negativo do outro, haverá lágrimas, haverá raiva, haverá reações imprevisíveis. Tudo isso é normal e são reações que precisam ser acolhidas para que seja possível reconstruir a autoestima e a confiança em si.

E autoestima e confiança em si é o ponto-chave de toda essa conversa.


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